Instituto Tomasiano

Exposição Sudário de Turim

Os mistérios que envolvem o Santo Sudário de Turim, o pano de linho que segundo a tradição cristã teria envolvido o corpo de Jesus Cristo após sua morte, serão tema da exposição virtual neste sábado, dia 27/08 às 20h.

O Santo Sudário, ou Sudário de Turim, é um tecido de mais de 2 mil anos que carrega as marcas dos ferimentos suportados por Cristo no evento da Paixão. O Sudário está guardado na Catedral de Turim, na Itália, e tem sido objeto de muitas pesquisas a respeito de sua datação e possível legitimidade enquanto mortalha fúnebre de Jesus Cristo.

Nas palavras de Ir. Tibério Graco Transfeld, LC, nosso palestrante: “através dessa exposição podemos entender um pouco mais o que significou a Paixão de Cristo, o que na carne significou a flagelação, a coroa de espinhos e os pregos”. 

 

Tibério Graco de Moraes Transfeld, LC.

Religioso da congregação dos Legionários de Cristo. Possui o Associate's Degree em humanidades clássicas pelo Legion of Christ College of Humanities, nos Estados Unidos. Bacharelado de filosofia no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum em Roma.

Tópico: Exposição – O Sudário de Turim

Hora: 27 ago. 2022 às 20:00

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Assista a exposição virtual completa:

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Alegria e Esperança – A Gaudium et Spes no Mundo Contemporâneo

A Gaudium et Spes publicada em 1965 se mantém como um documento atual após quase 60 anos da sua publicação e cumprindo o seu objetivo de Constituição Pastoral, afinal, segundo o Papa Bento XVI, a Gaudium et Spes “vê o mundo como uma realidade em frente à Igreja com a qual ela coopera para a sua construção” (Assunção, 2018).

Em uma de suas meditações, o Papa Francisco relembrou a essência da Gaudium et Spes (Alegria e Esperança) para os Cristãos Católicos de todo o mundo. Segundo o Papa, uma alegria sem esperança é um simples divertimento e uma alegria passageira. E a esperança – a segunda das virtudes teologais ao lado da fé e da caridade – sem alegria nada mais é do que um otimismo para a realização de um desejo que esperamos que aconteça na nossa vida (Papa Francisco, 2016).

A separação da fé e da esperança pode ser traduzida no mundo atual como uma felicidade mundana, vendida em cada esquina, em cada loja de cada shopping center. Coisas de um mundo moderno que propicia uma satisfação momentânea, um instante de felicidade que em breve será substituído por outro desejo, outra busca ou, pior, outras buscas incessantes para um sentido para a vida. E, geralmente, essa busca se baseia em bens materiais, sem se atentar para o que realmente constitui a sua vida.

Influenciada pela revolução tecnológica, que permite a rápida troca de informações e o conhecimento de fatos e acontecimento em tempo real, a sociedade sofre um bombardeio de informações da mídia e do marketing digital que impactam as suas decisões e suas relações interpessoais – família, escola, trabalho, amizades. Muita insegurança e muitas incertezas afastam as pessoas do verdadeiro significado da vida Cristã e da participação na construção do mundo. Afinal, somos todos convidados desde o nosso nascimento e, principalmente, após o nosso batismo, a darmos a nossa contribuição para o desenvolvimento do projeto de Deus no mundo.

A missão do Cristão é inserir a sua história numa história maior ainda que é a continuação da criação do mundo e a sua transformação em uma sociedade fraterna, que combata as desigualdades, a discriminação racial e social e que fortaleça a família como base dessa sociedade. Essa transformação esperada deve ser baseada também no envolvimento e no desenvolvimento da fé e da religiosidade de maneira que caminhem em sintonia com o desenvolvimento tecnológico para que este seja um instrumento de serviço e de união da comunidade Cristã, e não seja divisor de ideias, gerador de dúvidas e inversor dos valores cristãos (Assunção, 2018).

Muitas das infelicidades e da desesperança que tomam conta das pessoas e as fazem sofrer com problemas psicológicos são resultado do abandono da religião e de uma vida focada no ego, na interiorização excessiva dos problemas do dia a dia e na crença da autossuficiência. A consequência dessa forma de vida é o esquecimento de que a alegria verdadeira vem de Deus, e só ocorre em nossas vidas quando colocamos a nossa esperança e nossa crença nesse Deus de amor, de misericórdia, de vida e na Sua revelação através da face de Cristo.

Neste sentido, a Gaudium et Spes se aplica na retomada da consciência da alegria e da esperança em Cristo para a realização das obras de Deus, direcionando a Igreja para o acompanhamento das transformações provocadas pela inteligência e criatividade do homem. É curioso entender que essas transformações criadas pelo homem afetam o próprio homem na sua forma de agir, pensar, de se comunicar e de se relacionar (GS, 4).

A prática da Gaudium et Spes passa pela orientação da sociedade Cristã de que toda criação deve ser direcionada à valorização do bem-estar, do fortalecimento das relações tendo o exemplo de Cristo e os dons do Espírito Santo como inspiração para essa transformação.

Autor: Mário Luís Magnani

Mário Luís Magnani, Formado em Teologia Pastoral pela Escola de Teologia Santa Cruz e é Bacharelando em Teologia – Doutrina Católica pela Uninter. Atua na Paróquia São Sebastião de Valinhos como Ministro da Palavra, Ministro da Eucaristia e é membro da Pastoral do Batismo.

Referências:

ASSUNÇÃO, Rudy A. de. Bento XVI, a Igreja Católica e o “Espírito da Modernidade. 1ª Edição. São Paulo: Paulus, 2018.

GS. Constituição Pastoral Gaudium et Spes Sobre a Igreja no Mundo Atual. Disponível em https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html . Acesso em 07 de maio de 2022.

PAPA FRANCISCO. Com Alegria e Esperança. Meditações Matutinas na Santa Missa Celebrada na Capela da Casa Santa Marta. Disponível em https://www.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2016/documents/papa-francesco-cotidie_20160506_com-alegria-e-esperanca.html . Acesso em 07 de maio de 2022.

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CURSO: Noções Gerais sobre a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino

O Instituto Tomasiano e a Paróquia São Sebastião convidam a todos para o curso Noções Gerais sobre a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino!

A Suma Teológica é uma das obras centrais para compreender nosso tempo. São Tomás é considerado o principal Doutor da Igreja, suas obras apresentam os pontos essenciais da Doutrina Cristã na forma de debate.

Estudar esta obra é uma oportunidade rara, ainda mais quando é explicada com uma atualização de acordo com as diretrizes do Concílio Vaticano II. Através desse estudo, podemos acessar um conhecimento teológico que impacta, até hoje, o nosso modo de pensar.

As aulas serão ministradas pelo Prof. Dr. Plínio Marcos Tsai, de segunda a sexta-feira das 21h às 22h via transmissão ao vivo pelo Zoom.

O curso Noções gerais sobre a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino é aberto para todos os interessados a iniciarem os estudos de Graduação (Livre) em Teologia pelo Instituto Tomasiano da Paróquia São Sebastião. Para quem não tem interesse na Graduação (Livre), o requisito é ser dizimista da sua paróquia local.

Para mais informações, por favor entre em contato através do nosso WhatsApp: 19 4115-0111

Para se inscrever preencha o formulário abaixo:

Qual seu vínculo:

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Declaração Roma Monti sobre Humanidade Compartilhada 2022

Declaração assinada dia 25 de maio de 2022

Nossos professores Plínio Tsai e Patricia Palazzo estiveram em Roma para assinar o Roma Monti Declaration on Shared Humanity, documento em defesa do diálogo interreligioso e dos Direitos Humanos. Uma cópia do documento foi entregue ao Papa Francisco e outra foi depositada na Basílica de Santa Maria Maggiore, antigo Vaticano. Abaixo o texto da declaração:

Sociedades humanas estão em crise. Condições climáticas extremas e extinção em massa recaem sobre nós. Guerras, desastres climáticos e migrações forçadas levam a um sofrimento humano agudo, especialmente daqueles que historicamente foram mais oprimidos, aqueles que carregam o fardo da humanidade em seus ombros. Nós reconhecemos que dignidade e bem-estar material são desigualmente distribuídos, que não fazemos o suficiente para reparar as injustiças diárias que flagelam nossas sociedades, e que ainda devemos traçar um caminho claro para colocar os destituídos e desempoderados no centro de nossos serviços e juntos permitirmos a emancipação deles das estruturas que os oprimem.

  1. Nós declaramos que seres humanos, apesar de nascerem iguais em dignidade e liberdade, permitiram a desigualdade, exploração, opressão, pobreza e indignidade tomarem as rédeas das sociedades, forçando os mais vulneráveis a viver uma vida de miséria e sujeição, enquanto permitiram os mais poderosos a viverem vidas de opulência e excesso.
  1. Nós reconhecemos que está dentro de nossa capacidade enquanto seres humanos de desmontar as estruturas opressivas e encontrar novos caminhos para o florescimento humano de forma igualitária. Pessoas desbravadoras e pioneiras, que encontram caminhos alternativos para sociedades justas e ecossistemas que prosperam merecem reconhecimento e apoio.
  1. Nós declaramos que o bem-estar, felicidade e sabedoria coletiva dos seres humanos está no centro das sociedades justas que existem em equilíbrio com seus ecossistemas naturais.
  1. Nós reconhecemos que nos dias de hoje lucro, ganância e ambições individuais para possuir, competir e dominar estão no centro da maioria das sociedades, e que resultou em um imenso sofrimento humano, além de danos ambientais. Aqueles que dedicam suas vidas para proteger as pessoas e a natureza merecem respeito e servem de inspiração para imitarmos as suas ações.
  1. Nós declaramos ser de grande valor social o trabalho das classes operárias – a labuta dos que plantam e cultivam nossa comida e produzem e distribuem os bens básicos, que cuidam dos outros e mantém nossas sociedades funcionando, frequentemente trabalham com as tarefas mais desagradáveis e que mais demandam fisicamente, sendo pagos a menos e forçados a viver precariamente.
  1. Nós reconhecemos que, apesar da igualdade inerente dos seres humanos, vivemos em um mundo desigual, no qual metade da humanidade é indigente, enquanto uma ínfima minoria se apropria de mais de dois terços da enorme riqueza que todos nós – mas especialmente as classes operárias – coletivamente criaram (World Inequality Report 2022). Aqueles que laboram para alimentar e nutrir o mundo merecem gratidão, respeito e uma compensação adequada.
  1. Nós declaramos que a pobreza não é um fenômeno natural, mas uma injustiça criada por mãos humanas. Seres humanos podem e devem mudar, de tal forma que ninguém deva ser sujeitado a viver em pobreza que impossibilite a realização de seus caminhos pessoais, que minam a dignidade humana e privam as sociedades de nossas contribuições.
  1. Nós reconhecemos que, o aumento das migrações forçadas devido a guerras e mudanças climáticas forçarão muitos mais de nossas irmãs e irmãos a condições materiais insustentáveis que danificam a dignidade de todos nós. Todos aqueles que dedicam suas vidas para empoderar os desprovidos e protegem seu bem-estar merecem respeito e servem de inspiração para imitarmos as suas ações.
  1. Nós declaramos que mulheres são iguais a homens em dignidade e liberdade, e que possuem um papel crucial na criação de uma sociedade mais justa no qual amor, cuidado, solidariedade e criatividade substituem o ódio, dominação, ganância e disciplina estéril.
  1. Nós reconhecemos que mulheres e meninas são sistematicamente discriminadas por razão de gênero, sendo marginalizadas, humilhadas, agredidas sexualmente e forçadas a ser subordinadas na maioria das sociedades do mundo. Aqueles que defendem a igualdade de gênero, empoderam mulheres e meninas, e as protegem de qualquer dano merecem respeito e servem de inspiração para imitarmos as suas ações.
  1. Nós declaramos que não há barreiras para o amor, que seres humanos devem amar uns aos outros, indiferentemente de gênero, orientação sexual ou deficiências.
  1. Nós reconhecemos que, nossas irmãs e irmãos das comunidades LBGTQ (lésbicas, bissexuais, gays, trans e queer) sofreram desproporcionalmente com o ódio e violência que acompanham a ignorância e intolerância, e por essa razão merecem reconhecimento especial, apoio e proteção nesses tempos turbulentos.
  1. Nós declaramos que, todos os seres humanos nascem iguais e que todos partilham de esperanças e aspirações, caminhos de realizações, caminhos de sofrimento, e sonhos dentro de uma jornada comum enquanto seres humanos.
  1. Nós declaramos que seres humanos partilham da liberdade de seguir caminhos de vida particulares dentro dos direitos e obrigações por todos compartilhado e contribuir para o bem comum da humanidade.
  1. Nós declaramos nosso respeito e boa vontade perante todas as tradições religiosas que seguem um caminho que leva para a paz, cooperação comum e bondade.
  1. Nós partilhamos de um caminho comum que leva ao Absoluto e por essa razão reconhecemos a diversidade de caminhos, textos e tradições que pretendemos respeitar e promover para que os outros também respeitem.
  1. “Aos seres sencientes pobres e desprovidos, que eu me torne um tesouro sempre abundante, e me encontre ao alcance deles, uma fonte variada de tudo o que necessitarem” (Śāntideva, Bodhisattvacaryāvatāra III, 10).
  1. “OM. Essa Palavra eterna é tudo: o que era, o que é e o que será, e o que está além na eternidade. Tudo é OM” (Mandukya Upanishad).
  1. Abençoado é o tempo quando me recordo de Vós. Abençoado é o trabalho que é feito para Vós. Abençoado é o coração no qual Vós habitais, Ó Doador de tudo. Ó meu Deus! Vós sois o Pai Universal para todos nós. Vós habitais de forma profunda em cada e em todos os corações. Todos partilham de Sua Graça; ninguém é maior que Vós. (Sri Guru Granth Sahib, p. 97).
  1. “Shema Yisrael, Adonai eloheinu, Adonai echad – barukh shem kevod malkhuto le’olam va’ed” (Dt 6, 4-9).
  1. “Em nome de Deus, o Gracioso, o Misericordioso, Louvado seja Deus, Senhor dos Mundos, o Mais Gracioso, o Mais Misericordioso” (al-Fatihah).
  1. “A fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17, 21).
  1. Nós declaramos que, enquanto irmãos e irmãs podemos partilhar de nossas alegrias, paz e felicidade com todos os seres humanos através de nossas orações e meditações diárias.

Rome Monti Declaration for a Shared Humanity 5.2022

© Mario I. Aguilar and Camila Vergara Maio 2022

Traduzido por Patricia Guernelli Palazzo Tsai

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Karl Rahner

Karl Rahner nasceu em Março de 1904, em Friburgo, na Alemanha, o quarto de sete filhos. Seu pai era professor e sua mãe vivia em tempo integral na educação de seus filhos e, conforme as biografias disponíveis sobre Rahner, inspirou nele grande fé e desejo de estudar e se aprofundar no catolicismo.

Aos 18 anos de idade, em 1922, o jovem Karl inicia seu noviciado na Companhia de Jesus, logo após ter se formado na escola, tendo tomado os votos em 1924, em Pullach, ficando ali até 1928 para sua formação em filosofia. De 1929 a 1932 se dedicou aos estudos teológicos em Valkenburg, na Holanda, tendo sido ordenado sacerdote no mesmo ano de 1932.

De 1932 a 1936 se dedica ao mestrado em Friburgo, tendo como orientador Martin Honecker, tendo conhecido o filósofo Martin Heidegger. E em 1936 conclui o doutorado em um único ano, tendo escrito sua tese sobre a origem da Igreja no lado ferido de Cristo.

Rahner se inspirava muito em Inácio de Loyola quando iniciou seu noviciado, e mais adiante pelos filósofos Immanuel Kant e Martin Heidegger e pelos teólogos S. Tomás de Aquino e os jesuítas Joseph Maréchal e Pierre Rousselot (ambos tomistas).

 

S. Tomás de Aquino

Em 1938, com o nazismo se tornando cada vez mais potente, Rahner teve de buscar asilo em Viena, diante do fechamento da faculdade de teologia. O regime nazista na Alemanha além de implementar campos de concentração e políticas de extermínio, também promoveu o fechamento de igrejas e inclusive executou incontáveis padres, freiras, leigos e leigas católicos.

Rahner escreveu diversos livros, tanto de filosofia, quanto de teologia, tendo chamado a atenção de teólogos de grande renome, o que lhe rendeu em 1960 a sua nomeação como consultor da comissão preparatória De sacramentis, para a realização do Concílio Vaticano II. Por sua grande capacidade foi escolhido pelo próprio Papa João XXIII como um dos 195 peritos conciliares.

 

Concílio Vaticano II

Além disso, Rahner foi um dos principais e mais importantes teólogos para o Concílio, recebendo reconhecimento e um agradecimento do Papa Paulo VI. Antes do término do Concílio Vaticano II, fundou uma revista juntamente com Edward Schillebeeckx, Yves Congar, Hans Küng, Johann Baptist Metz, Paul Brand e outros, revista essa que até os dias de hoje é publicada – Concilium.

Concilium 2022 - Founders’ Memorial Issue

No primeiro número da revista há um artigo escrito pelo futuro Papa Bento XVI, Joseph Ratzinger. Na mais recente edição, datada de abril deste ano, foi realizada uma comemoração em memória dos fundadores, com artigos selecionados de cada um.

Rahner possui lista de publicações extensa, e por essa razão vamos apontar algumas de suas obras, que podem ser encontradas em português: Curso Fundamental da Fé e O Cristão do Futuro.

Porém, infelizmente as demais obras de Rahner não vieram a ser traduzidas ao português, tais como Hörer des Wortes (O Ouvinte das Palavras), Geist in Welt (Espírito no Mundo), Maria, Mutter des Herrn (Maria, Mãe de Deus), Zur Theologie des Todes (Sobre a Teologia da Morte) e Schriften zur Theologie (Escritos sobre Teologia) de 8 volumes.

A teologia de Rahner traz uma visão importante sobre um aggiornamento, uma atualização da Igreja para acompanhar o mundo em constante mudança, sem sair de suas bases, mas sem se perder em um tempo que não mais é o de outrora. É a abertura de janelas para que o sopro de ar possa entrar, o sopro de ruah (pneuma, em grego, se referindo ao Espírito Santo).

E esse sopro divino também é importante para compreender a teologia trinitária de Rahner, com a sua perspectiva antropocêntrica, além das suas contribuições no tocante a uma teologia sobre a morte.

Rahner, em seu Espírito no Mundo afirma o seguinte (1994, p. 406)[1]:

Assim, o homem encontra a si mesmo quando está no mundo e quando pergunta sobre Deus; e quando ele pergunta sobre sua essência, ele sempre se encontra já no mundo e em direção a Deus. Ele é ambas as coisas de uma só vez, e não pode ser um sem o outro.

            Seres humanos se encontram exilados no mundo, mas já estão além dele ao mesmo tempo, e é justamente por esse duplo pertencimento – ambivalência – que para Rahner o homem não pode ser apenas um ser do mundo, limitado pelo material e pelos sentidos, mas sempre é ambos do mundo e do que está além do mundo.

            Karl Rahner faleceu em 1984, aos 80 anos de idade, tendo deixado um legado de mais de 4.000 textos escritos. Apesar de não ser bem conhecido no Brasil, Rahner é um teólogo de peso, com importantes contribuições que poderão enriquecer ainda mais os estudos teológicos em nosso país.

Referências

CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1964.

KENNEDY, Philip. Twentieth-Century Theologians: A New Introduction to Modern Christian Thought. I. B. Tauris, 2010.

MONDIN, Batista. Os grandes teólogos do século vinte. Tradução José Fernandes, São Paulo, Edições Paulinas, 1979.

RAHNER, Karl. Spirit in the World (Trad. William Dych, S.J.). New York: Continuum, 1994.

VORGRIMLER, Herbert. Understanding Karl Rahner: An Introduction to His Life and Thought. New York: Crossroad, 1986.


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Garrigou Lagrange e a Teologia Tomista Tradicional

Nascido em Auch (França) em 1877, Garrigou Lagrange possui uma exemplar trajetória de estudos, chegou a iniciar o curso de medicina, mas foi chamado em 1987 quando ingressa na Ordem Dominicana e inicia seus estudos teológicos. Em 1902 é ordenado sacerdote e passa por diversos cursos de aperfeiçoamento teológico, logo em 1905 passa a lecionar e ao mesmo tempo se aprofundar no pensamento de São Tomás e da escola tomista, tendo comentado todas as partes da Suma Teológica.

Garrigou Lagrange

Em 1909 publica uma obra de grande destaque no meio filosófico, Les sens commun et la philosophie de l’êtere. Nos anos seguintes, segue ensinando diversas disciplinas e funda junto a outros intelectuais um grupo de estudos de São Tomás e São João da Cruz. Este grupo chegou a contar com 150 pessoas. Em 1923 publica Perfection chrétienne et contemplation selon saint Thomas d’Aquin et saint Jean de la Croix, obra responsável por colocá-lo entre os grandes mestres da vida espiritual de seu tempo. Padre Garrigou Lagrange dedica muito tempo aos exercícios espirituais, e é muito requisitado como diretor espiritual.

Em 1955, é nomeado consultor do Santo Ofício, mesmo com idade avançada e saúde debilitada, ele se empenha em executar da melhor forma suas tarefas. Contudo, em 1960, sua saúde piora e ele precisa abandonar o cargo. Quando o Papa João XXIII convocou o Concilio, nomeou o Padre Garrigou Lagrange como conselheiro, mas este negou a posição devido a sua saúde, mas disse que dedicaria seu sofrimento ao bom êxito do Concilio.

Garrigou Lagrange escrevendo

Quando falamos das obras do Padre Garrigou Lagrange, somos surpreendidos pela extensa produção, donde contam 722 escritos. Desta maneira, as principais obras são agrupadas em três grandes blocos: filosóficos, teológicos e ascéticos.

Obras filosóficas: Le sens commun, la philosophie de l’être et les formules dogmatiques (Beauchesne, Paris, 1909); Dieu) son existence et sa nature (Beauchesne, Paris, 1914); Le réalisme du príncipe de finalité (Desdée de Brouwer, Paris, 1932); Le sens du mystere et le clair-obscur intellectuel (Desclée de Brouwer, Paris, 1934); La synthese thomiste (Desclée de Brouwer, Paris, 1946).

Obras teológicas: Le sauveur et son amour pour naus (Du Cerf, Juvisy, 1933); La prédestination des saints et la grâce. Doctrine de S. Thomas comparée aux autres systemes théologiques (Desclée de Brouwer, Paris, 1936); La synthese thomiste (Desclée de Brouwer; Paris, 1946); De Revelatione per Ecclesiam catholicam proposita (Ferrari-Gabala, Roma-Paris, 1918); De Deo Uno. Commentarium in primam partem S. Tomae (Desclée de Brouwer, Paris, 1938); De Deo trino et creatore (Marietti-Desclée, Turim-Paris, 1943); De Christo Salvatore ( Marietti-Desclée, Turim-Paris, 1945); De gratia (Berrutti, Turim, 194 6); De virtutibus theologicis (Berrutti, Turim, 1948); De beatitudine et de actibus humanis (Berrutti, Turim, 1951).

Obras ascéticas: Perfection chrétienne selon St. Thomas et St. Jean de la Croix (Ed. de La Vie Spirituelle, Saint-Maximim, 1923); L’amour de Dieu et la croix de Jésus (Du Cerf, Juvisy, 1929); La providence et la confiance en Dieu: fidelité et abandon ( Desclée de Brouwer, Paris, 1932); Les trais conversions et les trais voies (Du Cerf, Juvisy, 1933); Les trois áges de la vie intérieure (Du Cerf, Paris, 1938); L’eternelle vie et la profondeur de l’âme ( Desclée de Brouwer, Paris, 1950); De sanctificatione sacerdotis secundum nostri temporis exigentias (Angelicum, Roma, 1946); De unione sacerdotis cum Christo sacerdote et victima (Marietti, Tu rim-Roma, 1948).

Não exaurindo o tema, mas como forma de resumir o pensamento nucleico do Padre Garrigou Lagrange, Modin explica:

“Demonstrada a existência de Deus, Garrigou Lagrange enfrenta o problema de sua natureza. Sua cognoscibilidade é baseada na doutrina da analogia. Quanto aos atributos, aquilo que, segundo Garrigou, melhor a caracteriza e a distingue mais claramente das criaturas, é a identidade do ser com a essência. De fato, tal identidade só é encontrada em Deus. Em todas as criaturas, essência e se r são realmente distintos. Por isso, conclui o nosso autor, “a verdade fundamental da filosofia cristã é que em Deus a essência e a existência são idênticas, ao passo que nas criaturas são realmente distintas”.

É esse, em síntese, o pensamento filosófico de Garrigou Lagrange, um pensamento rigorosamente fiel ao de são Tomás e exemplar pela profundidade especulativa. É o mais perfeito modelo do tomismo no início do século, ou seja, de um tomismo que se ressente fortemente da atitude crítica, razão pela qual preocupa-se mais com o primado epistemológico do que ontológico do ser; de um tomismo que ainda não tem plena consciência do valor supremo que o princípio do ser-perfeição-absoluta possui na filosofia de são Tomás; de um tomismo que ainda se encontra um pouco fechado, que permanece estranho a alguns dos problemas mais atuais da filosofia, como os da filosofia da ciência, da filosofia da arte, da filosofia da linguagem e da filosofia da história (MONDIN, 1979, p34-35).

Desta forma, o pensamento do Padre Garrigou Lagrange expressa a escolástica tradicional e faz parte do contra movimento de libertar a Igreja Católica do escolasticismo em detrimento da filosofia moderna. Neste contexto, passa a destacar a validade da filosofia tomista, resultando na condenação da “nova teologia”. Assim, para compreender os desenvolvimentos da teologia recente, faz-se necessário compreender este pensamento que predominou por grande parte da época contemporânea.

Biografia:

MONDIN, Batista. Os grandes teólogos do século vinte. Tradução José Fernandes, São Paulo, Edições Paulinas, 1979.

Nirvana França, estudante de teologia metodista, bacharel em direito, mestra em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, onde atualmente cursa o doutorado em Ciências da Religião.

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Marie-Dominique Chenu

Marie-Dominique Chenu

Marie-Dominique Chenu é um dos grandes nomes dos teólogos do Século XX, com seus vários estudos acerca da natureza da teologia e suas atividades, mas tendo uma contribuição especial e pioneira na área de teologia do trabalho. Sendo um historiador da Idade Média, ele utiliza os seus conhecimentos para analisar os sinais dos tempos, e atualizá-los em seu contexto histórico. Foi essa dupla pertença de Marie-Dominique Chenu, como historiador e teólogo, que o permitiu fazer grandes investigações sobre a ação da Igreja no mundo.

Marie-Dominique Chenu nasceu em 7 de janeiro de 1895, na França, e aos dezoito anos se mudou para a Bélgica, para adentrar a Ordem dos Pregadores, onde permaneceu por dois anos. Esse evento marcou muito a sua vida, pois neste período ele descobriu o seu gosto pela vida contemplativa. Mas, ao retornar para França em 1915, deparando-se com os conflitos no mundo, em meio à primeira guerra mundial, ele sentiu o chamado de agir no mundo. Pois percebeu que o aperfeiçoamento pessoal não vinha somente da vida contemplativa, mas também era possível através da ação no mundo: “É para isso, é exatamente para estes que sou enviado! Retornar ao mundo, eis a lei da minha vida, incluindo também a da minha perfeição pessoal.’ Esse é um dos traços típicos da minha vocação, como também de minha missão de teólogo.” (MONDIN, 1979, p.124). E foi neste período que o teólogo se determinou a agir em benefício do mundo, e não somente de si mesmo.

Mas ele não permaneceu na França, pois logo foi enviado à Roma para estudar Filosofia e Teologia no Colégio Angélico, onde se aprofundou no tomismo, sob a orientação de outro grande nome da Teologia, Garrigou-Lagrange. Em 1920, com 25 anos, Chenu obteve o doutorado em teologia, e na sequência retornou para a França, onde foi nomeado professor, e posteriormente reitor, da faculdade de teologia Le Saulchoir, um grande centro de medievalistas e tomistas daquele tempo. Em 1937 ele escreveu o livro Une école de théologie: reflexões sobre a natureza e tarefas da teologia, o qual foi colocado no Index (lista de livros proibidos) em 1942. Devido a esta situação, Chenu pediu demissão da faculdade e se exilou durante quatro anos. Em 1946 foi nomeado professor em Sorbona (Sorbonne, Paris), mas em 1953 voltou como professor para a faculdade de Le Saulchoir.

Em 1954, Chenu já estava engajado nas questões relacionadas à teologia do trabalho, envolvendo-se no movimento da JOC (Juventude Operária Católica) e dos padres operários, e por este motivo teve que deixar a cidade por ordens do Vaticano. Porém, mesmo assim ele foi convocado para o Concílio Vaticano II, na qualidade de perito pessoal de um bispo de Madagascar, tendo sido bastante ouvido, e dado grandes contribuições à elaboração do Esquema XIII (Gaudium et Spes, “Alegria e Esperança”, uma Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual).

Sua produção científica foi vasta, chegando a quase 400 escritos, incluindo doze livros. Parte de suas obras eram de caráter histórico, tratando da Teologia medievalista e tomismo, com três grandes estudos fundamentais para o entendimento da escolástica e do pensamento de São Tomás: Introduction à l’étude de saint Thomas (1950), La théologie comme science au XIII scècle (1942), e La théologie au XII siècle (1957). Mas foi a vertente de suas obras relacionada à teorética que o levou à proeminência entre os teólogos do século XX, sendo as mais significativas: Pour une théologie du travail (1955), La parole de Dieu (1964), La Théologie est-elle une science? (1957), e Peuple de Dieu dans le monde (1966). Assim se via o próprio Chenu:

“[…] um velho medievalista de certa fama, imerso na leitura de textos antigos, estofado de erudição, ligado aos velhos séculos da cristandade, em uma tradição que se obstina a manter-se em meio ao mundo contemporâneo; do outro, um jovem que se lança indócil na confusão do mundo contemporâneo, extremamente sensível aos seus apelos, pronto a enfrentar os problemas delicados do mundo e da Igreja.” (MONDIN, 1979, p.127)

Um teólogo que une os conhecimentos de história e teologia, para encontrar formas de beneficiar o mundo. E foi com este objetivo, de agir no mundo, que foi o pioneiro em desenvolver a teologia do trabalho, em meio aos desafios e dificuldades do surgimento do trabalho industrial, que tomava o lugar do trabalho artesanal. Foi neste contexto que Chenu encontrou formas de unir a missão da Igreja à missão do trabalho, como sustento não somente do corpo, mas do espírito. Para o teólogo, o trabalho deve ser para o bem coletivo, da sociedade, não individual, e para isso deve ter um valor objetivo, não subjetivo, pois está orientado para o bem de todos.

“O trabalho não pode ser considerado e definido primeiramente com base nas fontes subjetivas, ou seja, nas intenções, boas e más, do trabalhador, mas sim no seu valor objetivo, ou seja, no fim a atingir por meio da própria obra na sua realização, para além das intenções, emoções e outros sentimentos. Em sua linguagem escolástica, aquilo que define primeiramente o trabalho é o finis operis, a perfeição da obra, antes do finis operantis, a perfeição do trabalhador. O trabalhador trabalha por sua obra antes mesmo que por si mesmo. O trabalhador submete-se à sua obra.” (MONDIN, 1979, p. 146).

Mas com isso Marie-Dominique Chenu não está afirmando que o trabalho deve se tornar um fim supremo, pelo qual o homem alcança a sua perfeição definitiva, mas deve ser considerado um “fim segundo”, como um instrumento de perfeição para obtenção do progresso (MONDIN, 1979, p. 147). Para ele, a teologia é incapaz de esvaziar de espiritualidade o trabalho, pois é através do próprio trabalho que o homem é chamado a cooperar com Deus, como um “co-criador do universo”. E por isso Marie-Dominique Chenu afirma que o trabalho e a espiritualidade não podem ser separados, pois o trabalho é sacro: “[…] recuperamos uma antiga ideia, bastante tradicional, segundo a qual não há dois domínios, um sacro, outro profano, da atividade humana. Não há senão um só domínio, onde tudo é sacro, para o cristão, na realidade em que trabalha.” (MONDIN, 1979, p. 149). E esta visão santifica o trabalho do homem, mudando sua forma de ver o mundo, ao transformar o seu esforço árduo em uma forma de louvor à Deus.

É com esta visão atuante no mundo, que Marie-Dominique Chenu, como historiador e teólogo, trouxe grandes contribuições para a Teologia do século XX, levantando questões que impactam até hoje, principalmente em relação à Teologia do Trabalho e à natureza da Teologia e suas atividades. Suas obras e o seu exemplo de vida nos trazem, portanto, muito conteúdo para ser aplicado em nossos estudos teológicos e em nossa vida cristã.

Biografia:

MONDIN, Batista. Os grandes teólogos do século vinte. Tradução José Fernandes, São Paulo, Edições Paulinas, 1979.

Nayara Maron Costa Takahashi, 15 de maio de 2022.

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Felipe Aquino. Para entender a reforma protestante. Lorena, Cléofas, 2016.

RESENHA: Para entender a reforma protestante.

O Professor Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre pela mesma área pela UNIFEL. Foi diretor geral da FAENQUI (Atual EEL-USP) durante vinte anos. Recebeu do Papa Bento XVI o título de “Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno” (06/02/2012). É professor do Instituto de Teologia Bento XVI da Diocese de Lorena, Dom Benedito Beni.

Felipe Aquino

 

O livro “Para entender a reforma protestante”, recebeu o “imprimatur” de Dom Benedito Beni dos Santos, Bispo Emérito de Lorena, em 14 de dezembro de 2016. Assim sendo, trata-se de uma obra de referência para que católicos de todo mundo entendam o que foi a Reforma Protestante. Tal obra é organizada em quatorze capítulos incluindo introdução, conclusão e bibliografia.

Na introdução são apresentados os pontos principais que serão abordados no livro, nos trazendo uma panorama geral, nela Felipe Aquino nos apresenta “A rivalidade entre os muitos príncipes alemães e a igreja, fortaleceu a luta de Lutero, e a reforma protestante aconteceu” (AQUINO, 2016, p9). Quando ele resume o ponto central do que foi o movimento proposto, ele apresenta:

Foi a negação instaurada por Lutero, permitindo uma visão subjetivista da fé, em que realça o caráter pessoal da salvação em detrimento do caráter institucional. É possível seguir a Deus sem seguir uma instituição em concreto. Nega a necessidade da Igreja para a salvação (AQUINO, 2016, p11)

Para concluir a introdução Felipe Aquino coloca: “O objetivo deste livro não é de forma alguma hostilizar nossos irmãos separados e nem provocar polêmicas e discussões inócuas” (AQUINO, 2016, p12).

Em seus dois primeiros capítulos, nos é apresentado um panorama histórico. No primeiro um panorama da situação política em que se encontrava a região que hoje chamamos de Alemanha e posteriormente uma apresentação de quem foi Martinho Lutero, o pai da Reforma protestante. Ao descrever as razões pelas quais Lutero havia optado por adentrar a vida monástica disse:

Por causa de uma coisa insignificante minha mãe bateu-me até escorrer sangue, e essa dureza e severidade da vida passada com eles, foi que subsequentemente me forçou a fugir para um convento e fazer-me monge (TISCHEREDEN, FRANKFORT, 1567, fol 314 apud  AQUINO, 2016, p19)

Continuando a descrever as razões pelas quais Lutero optou pela vida religiosa, Felipe Aquino explica:

Mais uma vez na sua vida, Lutero acreditou que via e ouvia Satanás sob a forma de cão ou outro animal, que o incomodava. Lutero recebeu instrução religiosa, porém, recebeu mais uma religião de temor do que de confiança, mais formalista do que interior e profunda. (AQUINO, 2016, p19)

Nas próximas páginas deste mesmo capítulo, Felipe Aquino irá descrever a fé de Lutero, descrevendo sua epifania, sua visão, e apresentando alguns historiadores protestantes para nos apresentar o pai da reforma.

No próximo capítulo: “O caso das indulgências”, o pilar mais famoso da reforma, que em poucos parágrafos é descrito. Nele Felipe Aquino resume os interesses políticos e os valores envolvidos para que Alberto de Hohenzollen fosse autorizado a ser bispo, não de uma diocese, mas de três, retratando os interesses políticos e em especial os interesses financeiros para viabilizar tal posto. Obter dos fieis os valores para pagar por este posto, tornou-se então o objetivo principal.

O capítulo seguinte: “O desenrolar dos acontecimentos”, é aberto com:

A pregação das indulgências em Witemberg foi uma oportunidade para Lutero publicar “sua doutrina”, amadurecida há anos. Em 31 de outubro de 1517 afixou suas 95 teses na igreja do castelo de Witemberg, as quais tiveram enorme ressonância. A irritação alemã com a Cúria Romana favorecia muito a iniciativa de Lutero (AQUINO, 2016, p40)

Este capítulo apresenta-se dividido em vários subtópicos, nos quais Felipe Aquino apresenta os defensores e adversários de Lutero. A polêmica gerada. O apoio dos príncipes alemães. As obras básicas de Lutero. O cativeiro Babilônico. O brado à Nação Alemã. A liberdade Cristã. A revolta dos camponeses. De forma breve, os pontos principais percorridos pela biografia de Lutero são apresentadas.

Um capítulo é dedicado ao Calvinismo. Sem adentrar a detalhes mas apresentando os pontos principais, Aquino nos situa de quem historicamente foi Calvino, sua principal obra, seu ponto de dissonância com a fé Romana, centrada na questão dos dogmas, Ressalta-se que mesmo tendo sido breve Aquino nos levanta a questão da intolerância:

Ao organizar sua igreja, Calvino instituiu duas comissões: a Venerável Companhia, composta por pastores e doutores, encarregados do Magistério, e o Consistório, composta por pregadores e doze senadores leigos que teriam o encargo de zelar pela disciplina. Esta comissão visitava casas, servia-se de denúncias e espionagem paga; os réus gravemente culpados, caso persistissem no erro, eram entregues a um tribunal. Este proferiu de 1.541 a 1.546, 58 sentenças de morte, a tortura era aplicada com frequência (AQUINO, 2016, p69, grifo no original)

A relação entre Calvino e Lutero é explorada e detalhada, de tal forma que os pontos de encontro e afastamento de ambos se tornam evidentes, bem como a contribuição mútua para formação de uma doutrina em oposição a Católica Romana.

Para os pontos principais da Doutrina Protestante é dedicado um capítulo. Iniciando com uma crítica a Lutero não ter dado a devida atenção as escrituras, apresentando excertos dos escritos luteranos para demonstrar seus pontos principais.

Aquino dedica-se a falar também dos impactos da reforma no Brasil e o massacre dos quarenta jesuítas, dos mártires do Rio Grande do Norte, da morte do Padre André de Soveral, donde protestantes unidos a índios insurgentes provocavam mais um massacre sangrento.

A questão de Nossa Senhora não poderia deixar de ser abordada, uma vez que “o Protestantismo atual ainda mostra certa intolerância com a figura da Virgem Maria” (AQUINO, 20166, p93). Contudo o livro afirma que tanto Calvino como Lutero possuíam “estimas e reverência profunda a Nossa Senhora” (AQUINO, 2016, p93). A reverência do reformador a Maria é evidenciada por uma ordem religiosa luterana devotada a Maria, a Irmandade Evangélica de Maria, de origem Luterana, fundada na Alemanha.

A questão da reforma, levou a uma resposta da Igreja Católica. Para abordar tal questão é dedicado uma capítulo, Nele é evidenciado a importância da Tradição Apostólica, o que é o Sagrado Magistério e a Infabilidade da Igreja. As razões de porque Cristo quis o Papa. A questão da Bíblia e sua elaboração. Quem deve fazer a interpretação da Bíblia. A questão das imagens sagradas. Dos Santos. Do purgatório. A importância da Missa. Porque venerar a Virgem Maria. A questão de se o Papa seria a Besta do Apocalipse. Porque guardar o Domingo e não o Sábado. A questão de se Jesus teve mais irmãos. A justificativa de porque a Igreja batiza as crianças. Porque o Sinal da Cruz é importante. E, fechando o capítulo, a questão do celibato dos padres.

Encerra Aquino seu livro com as razões de porque somos Católicos. Para isso ele apresenta uma lista de vinte e três razões e sobre elas diz: “Infelizmente por desconhecer tudo isso, muitos católicos, que não conhecem a Igreja católica, abandonam-na, buscando outras comunidades eclesiais, que não estavam nos planos e vontade de Jesus Cristo” (AQUINO, 2016, p171)

Nirvana França, estudante de teologia metodista, bacharel em direito, mestra em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, onde atualmente curso o doutorado em Ciências da Religião.

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Hans Urs von Balthasar – Diálogos de beleza e esperança.

Hans Urs von Balthasar (1905-1988)

Hans Urs von Balthasar (1905-1988) foi um teólogo suíço que não foi chamado para o Concílio Vaticano II. No entanto, anos antes do Concílio ele já adiantara a necessidade de “derrubar as muralhas” que separavam a Igreja do mundo, e seus textos influenciaram deveras os conciliares, assim como foi uma grande influência para o papa São João Paulo II. Este o chamou para ser cardeal por três vezes até ele finalmente aceitar, porém Balthasar veio a falecer dois dias antes da cerimônia na qual receberia o solidéu cardinalício. O então cardeal Ratzinger – futuro papa Bento XVI – fez a homilia nas exéquias de Balthasar. Ratzinger e Balthasar, juntamente ao cardeal Henri de Lubac e outros, haviam fundado a revista Communio, na qual expressavam a necessidade de impor limites na maneira de interpretar e agir a partir das novidades do Vaticano II: “derrubar as muralhas” deveria manter a identidade cristã, evitando abraçar os problemas da modernidade.

Hans Urs von Balthasar

A obra de Balthasar é vasta, com destaques para a mariologia e o laicato (em um tempo em que valorizar o laicato não era comum). Editou as visões da mística Adrienne von Speyr, que lhe foi uma grande inspiração e colaboradora na Comunidade de São João para leigos consagrados. Os escritos de Balthasar sobre os Pais da Igreja – Gregório de Nissa, Orígenes, Irineu, Máximo Confessor, sob influência de seu professor Henri de Lubac – lhe renderam como prêmio a Cruz de Ouro do Monte Athos por parte da Igreja Ortodoxa Grega. Mas este não foi seu único papel no ecumenismo, uma vez que também foi grande amigo e colaborador mútuo do teólogo protestante Karl Barth, com quem partilhava a paixão por piano e Mozart.

E foi primeiro na música que Balthasar desenvolveu seus conhecimentos, seguindo para os estudos em Germanística, na qual pesquisou sobre a escatologia na literatura alemã. Apesar de ter nascido católico e ser devoto de Nossa Senhora, não tinha interesse em teologia até os tempos de universidade, quando foi influenciado pelo padre e teólogo Romano Guardini. Aos 22 anos, Balthasar participou de um retiro inaciano para descobrir sua vocação, e a partir dos exercícios espirituais de Inácio de Loyola, sente-se chamado para seguir a Jesus Cristo, ingressa na Companhia de Jesus, e é ordenado sacerdote sete anos depois, em 1936.

Mas ao ser dada a ele a escolha entre uma cátedra na Universidade Gregoriana de Roma e uma função como capelão estudantil na Basileia Suíça, ele escolheu a capelania para exercer seu trabalho pastoral, e passava aos jovens estudantes os exercícios inacianos que tanto lhe haviam sido significativos. E essa não foi a única ocasião em que ele negou o trabalho em universidades e outros cargos maiores, ou mesmo prejudicou a própria aceitação dentre os jesuítas em prol de abraçar o projeto de um instituto católico de leigos consagrados. Ou seja, negar por duas vezes a ordenação como cardeal não foi uma situação nova, e é impossível não notar a ironia implicada no fato de Deus levá-lo para si dois dias antes de se ver obrigado a aceitar algum posto diferenciado.

Mas podemos nos perguntar se sua produção literária teria sido tão prolífica caso ele tivesse optado por cátedras universitárias ao invés do trabalho pastoral. Sua obra mais conhecida é a trilogia “A Glória do Senhor” (ou “Teo-estética”), “Teo-drama” e “Teo-lógica”. Nela, Balthasar inverte a ordem de importância das três propriedades do ser da filosofia clássica grega – chamadas de três transcendentais –, que haviam sido arranjadas pelo filósofo Immanuel Kant na seguinte ordem: Verdade, Bondade e Beleza. No entanto, Balthasar percebe que muitos teólogos começavam pelo belo – como Agostinho, Orígenes, Bonaventura, João da Cruz –, e que em seu tempo (e, ouso dizer, no nosso também), começar a falar de Deus a partir de ideias de Verdade ou Bondade pré-estabelecidas não ajudava a criar pontes de diálogo, mas, ao contrário, afastava as pessoas, ao passo que começar pela Beleza não implicava em nenhuma ameaça, e trazia a abertura ao diálogo.  

Mas ao contrário de pensar na beleza como algo subjetivo, ele empresta de Tomás de Aquino as características que, interseccionadas, objetivamente definem algo como belo: integritas (completude), consonantia (harmonia) e claritas (radiância). Com isso, Jesus Cristo é o modelo ideal do que é belo, uma vez que é completo no cumprimento de seu propósito, é a harmonia entre o divino e o humano, bem como irradia a verdade. E, assim como quando estamos diante de algo muito belo, isso nos detém, nos chama e nos envia, Cristo nos detém, nos nomeia (ou renomeia), e nos envia em nossa missão, tal como fez com Pedro e Paulo.

E a beleza de Cristo é bem expressa em sua obra “Mysterium Paschale”, na qual comenta sobre os eventos de morte e ressureição de Cristo, demonstrando como a descida de Jesus para o mais baixo da “mansão dos mortos” possibilita que Cristo agarre e puxe de volta à vida o mais baixo dos pecadores em sua ressureição. Tal evento do teodrama é deveras enfatizado na teologia de Balthasar, uma teologia de esperança, que “ousa esperar que todos sejam salvos”.

Por essas e outras razões é que o pensamento teológico de Hans Urs von Balthasar é um dos objetos de estudo da graduação livre em Teologia do Instituto Tomasiano.

Referências:

BALTHASAR, Hans Urs von. Dare we hope that all men be saved? San Francisco: Ignatius Press, 1987.

BALTHASAR, Hans Urs von. Mysterium Paschale: The Mystery of Easter. San Francisco: Ignatius Press, 1990.

BALTHASAR, Hans Urs von. Communio – A Program. In: Communio 33 (Spring 2006). © 2006 by Communio: International Catholic Review. Disponível em: <https://www.communio-icr.com/files/balthasar33-1.pdf>. Acesso em: 04 de maio de 2022.

BARRON, Robert. Bishop Barron on Hans Urs von Balthasar (Part 1 of 2). Youtube, 20 de maio de 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uqSenlCcFws&list=WL&index=30&ab_channel=BishopRobertBarron>. Acesso em: 04 de maio de 2022.

BARRON, Robert. Bishop Barron on Hans Urs von Balthasar (Part 2 of 2). Youtube, 23 de maio de 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=A1RUtNmsHWU&list=WL&index=32&ab_channel=BishopRobertBarron>. Acesso em: 04 de maio de 2022.  

MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do século vinte. Tradução de José Fernandes. São Paulo: Edições Paulinas, 1979.

UFVedu – Universidad Francisco de Vitoria – Madrid – Máster de Humanidades. Introducción a la obra de Von Balthasar I – Prof. Ricardo Aldana Valenzuela, S. de J. Youtube, 12 de janeiro de 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=T_Prb5brQ00&t=2318s&ab_channel=UFVeduhttps://en.wikipedia.org/wiki/Hans_Urs_von_Balthasar>. Acesso em: 04 de maio de 2022.

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